A cantiga de preto velho ecoa na minha mente há dias, como um sino antigo lembrando verdades que insistimos em esquecer:
“No tempo do cativeiro, quando o senhor me batia…”
Quanto mais penso nesses versos, mais me pergunto se o cativeiro realmente acabou ou apenas mudou de aparência.
Hoje já não existem correntes nos pés, mas existem prazos, cobranças, boletos, expectativas e a necessidade constante de ser alguma coisa para alguém. O senhor do passado carregava um chicote, os senhores de hoje carregam relógios, metas, urgências e promessas de felicidade que nunca chegam completamente.
O meu senhor tem sido o tempo. Tem sido a necessidade. Tem sido o desejo interminável de conquistar mais, ser mais, viver mais e provar mais.
E eu, assim como aqueles que vieram antes de mim, também faço minhas rezas.
Não aos pés do tronco, mas diante das incertezas. Rezo por alívio. Rezo por descanso. Rezo para que os amigos permaneçam. Rezo para que os amores floresçam. Rezo para que a vida, por alguns instantes, permita que eu respire sem sentir o peso de tudo aquilo que ainda preciso carregar.
Às vezes imagino que a tecnologia nos prometeu liberdade. Conectou continentes, acelerou caminhos e encurtou distâncias. Mas, de alguma forma, também nos deixou permanentemente disponíveis, constantemente comparáveis e infinitamente insatisfeitos.
Mudaram as ferramentas. Mudaram os cenários. Mudaram os senhores.
Mas há dias em que escuto aquela velha cantiga e penso:
“Ai, meu Deus… como a pancada ainda dói.”
Não mais sobre a pele, mas sobre a mente. Não mais nos ombros, mas no espírito. Não mais sob a forma de açoites, mas de ansiedades, ausências, frustrações e medos que carregamos silenciosamente.
Talvez o grande desafio do nosso tempo seja justamente esse: reconhecer os cativeiros modernos que habitam dentro de nós e encontrar, em meio ao ruído do mundo, um caminho de volta para a liberdade que nenhuma corrente visível é capaz de aprisionar.
Talvez eu esteja comparando demais. Talvez esteja querendo demais. Se for assim, perdoe este novo escriba, que ainda tenta entender os próprios grilhões enquanto escreve sobre liberdade.
Mas aprendi que, neste mundo, o importante é ter a quem rezar. Seja para Deus, para os santos, para os ancestrais ou para si mesmo. O importante é não deixar que a esperança se cale.
Porque a vida, no fim das contas, continua sendo uma grande roda. E nela a gente cai, tropeça, levanta, desafina, aprende o passo e segue o compasso.
Mas não saia da dança.
Até a próxima.
Saul Galdino
