“Em uma cidade muito longe daqui, que tem problemas que parecem os problemas daqui”.
Eu andava em direção ao primeiro compromisso do dia. Aquela parte da manhã em que a gente ainda tenta pegar no tranco. Como era minha primeira vez naquela cidade, estacionei o carro um pouco longe do local para poder caminhar e ir conhecendo os arredores. Comprei um café amargo no copo descartável e segui para o compromisso.
Como todo cafezinho teima em puxar um cigarro, para aqueles que ainda têm esse vício démodé, parei em frente ao local do compromisso, do outro lado da rua, para terminar o café e acender um Marlboro.
Não percebi a presença do segurança, daqueles que se vestem todo de preto e usam coturno. Ele andava vagarosamente de um lado para o outro, três passos para um lado, meia-volta, três passos para o outro. Sabe-se lá pensando em quê?
Um segurança carente, procurando acelerar o tempo para chegar logo ao fim do expediente, em plena monotonia funcional, se deparando com alguém fumando um cigarro e pensando na vida, é prato cheio para que se inicie uma conversa aleatória, muitas vezes sobre um assunto que você não tem o menor interesse. E ele não me decepcionou.
– Sabe se tem alguma farmácia aqui por perto? Meu dente está inflamado e começando a doer.
Só quando ele chegou mais perto consegui identificar que era um agente socioeducativo. Seu uniforme tinha escrito nas costas o nome ESI, sigla do sistema socioeducativo daquela cidade.
Eu até gostaria de ser o tipo de pessoa que consegue dar uma resposta lacônica e monossilábica e sair de perto. Mas não consigo. Minha teimosia em não querer ser nunca mal-educado quase sempre me penaliza com um bate-papo desnecessário.
-Bom dia, querido. Eu não sou daqui, mas andei dois quarteirões até chegar aqui e não vi nenhuma farmácia. – respondi com um sorriso simpático.
Queria tanto conseguir não ser simpático às vezes. Mas essa minha terrível dificuldade prosseguiu me penalizando.
– Estou acompanhando uns “abençoados” lá da Ronem Adasuop. Tudo marginal, estão assistindo cinema, depois vão lanchar.
Ronem Adasuop era o nome do local onde os menores infratores daquela cidade ficavam internados quando tinham a liberdade impedida pela Justiça. Foi só aí que percebi também que eu havia parado em frente à cinemateca da cidade. Não consegui pensar em nada para responder ao “guardião carente”, sequer um sorriso consegui oferecer. Mas ele prosseguiu falando. Maldito cigarro!
– É cada galalau, você precisa ver. Eu não entendo isso. Vivem melhor que a gente.
Meu silêncio incrédulo prosseguiu, mas ele continuou desopilando, como se eu fosse um grande amigo ou um bom vizinho.
– O Estado gasta muito dinheiro com esses marginais. Eu acho um absurdo.
A vontade de fumar até passou, joguei metade do cigarro fora e me despedi dizendo:
-Se pelo menos uns três ou quatro conseguirem viver novas possibilidades, todo o dinheiro gasto já valeu a pena. Espero que seu dente melhore. Tenha um bom dia.
Já atravessando a rua, rumo ao compromisso, ainda ouvi:
– Sei não. É muito dinheiro!
Lembrei que, na minha cidade, o agente socioeducativo tem como missão, entre outras coisas, executar e avaliar as ações relacionadas à aplicação das medidas socioeducativas, assegurando o atendimento humanizado, a proteção integral e o desenvolvimento pessoal e social dos adolescentes. Será que o nosso guarda solitário do dente inflamado acha que sua função é proteger prédios públicos e a sociedade daqueles que ele é pago para cuidar?
Será que ele não sabe que seu ofício é atuar como um educador social, conciliando a vigilância com a orientação para a ressocialização dos jovens?
O escritor norte-americano, Earl Nightingale, escreveu que “Nós nos tornamos aquilo em que pensamos”. O que será que esse pobre coitado do dente inflamado pensa que deveria ser feito com esses menores em conflito com as leis? Que deveriam apenas ser punidos? Que não merecem uma segunda chance? Que o Estado deveria simplesmente trancá-los e esperar o tempo passar, sem se preocupar com quem serão quando voltarem para a sociedade?
Talvez o homem conversador do dente inflamado não perceba, mas a pergunta não deveria ser quanto o Estado gasta para ressocializar esses adolescentes. Deveríamos é perguntar quanto custa para a sociedade desistir deles.
Eles vão sair. E, quando saírem, poderão voltar melhores do que entraram ou ainda piores.
Ressocializar não é gastar com quem errou. É tentar evitar que o erro de um adolescente se transforme no problema de toda uma sociedade. O dinheiro gasto para tentar salvar uma vida pode até parecer muito, mas o preço de desistir dela pode ser infinitamente maior.
Mas tudo isso aconteceu “em uma cidade muito longe daqui, que tem problemas que parecem os problemas daqui.”
