O velho sábio e a difícil arte de sobreviver aos ‘chatos da eleição’ – Rodrigo Farias

Ia eu distraído andando pelas ruas quando, “do nada”, tropecei em uma velha lamparina. Nem precisei esfregá-la, como fez Aladim. Apareceu, entre a fumaça, um velho sábio. Em vez de desejos, disse-me o ancião, que me concederia um grande ensinamento: como saber conviver com pessoas desagradáveis e inconvenientes neste período eleitoral. Mais que isso: também me ensinaria a não me tornar mais um chato nesta campanha.

Convenhamos, tratando-se do Acre e de como quase todos aqui são apaixonados por campanhas eleitorais, me lixei para os desejos. Saber me livrar de perguntas e pessoas inconvenientes e, sobretudo, não me tornar uma delas é muito mais importante do que “meros desejos”.

E o velho sábio começou:

– Primeiramente, meu filho, nunca chegue a um local indagando alguém sobre o seu voto. A não ser que seja o assunto da roda e você tenha total liberdade com a pessoa questionada. Nem todos gostam de expor seus votos e muito menos de entrar em um papo chato, na maioria das vezes, sobre suas escolhas.

Via de regra, essas pessoas já perguntam o seu voto para poder entrar em um debate/discussão sobre suas preferências e critérios. Isso é chato e deselegante!

Quando você for a “vítima” desse ser inoportuno, apenas diga que está indeciso, que ainda não parou para pensar a respeito etc…

Isso vai salvá-lo do incômodo? Não! Mas vai amenizar um pouco. O chato passará o restante do tempo que você suportar ficar no local, tentando te convencer de que o candidato tal é o melhor. Ou de como o outro candidato é um verme nefasto.

O melhor a fazer nessas situações é inventar uma dor de barriga inesperada e meter o pé do local. Ele não vai parar. Enquanto você estiver presente, o tema será esse. Fuja!

Pedir para adicionar alguém a algum grupo de WhatsApp da campanha de candidato é sempre delicado. O mais prudente é enviar o link, deixando a pessoa decidir se aceita ou não participar. Sair adicionando sem sequer avisar, nem pensar. E caso alguém o convide e você não queira, a melhor saída é dizer que não gosta de grupos e que usa pouco o ZAP. Se, ainda assim, a pessoa insistir, deixe. Entre e depois silencie o grupo. Passa rápido!

Convidar para reuniões, bandeiraços, adesivaços e afins está liberado. Faz parte do jogo! Só não insista muito. O bom cabo-eleitoral tem que saber ser insistente sem ser inconveniente. Mas se o “convite” partir de um superior, em especial de órgãos públicos, de diretores, presidentes e demais nomenclaturas que servem apenas para te colocar no seu devido lugar, aí você terá que optar. Se este trabalho for realmente crucial na sua vida, aceite ao “convite-convocação”. Neste caso, vá, dance, balance bandeira, aprenda rapidamente o jingle do candidato e o cante bem alto. Não esqueça de registrar tudo. Sempre tem uma turma que ama postar nos grupos do trabalho essas selfies, com dizeres do tipo: “departamento tal é só alegria” com todos sorrindo e fazendo caras de felicidade por terem tido a “sorte” de poder estar ali. Caso você não esteja em nenhuma dessas fotos, saque mão do seu registro e poste com alguma coisa semelhante a “muito orgulho em fazer parte desse time” (os “chefes” adoram essas expressões de “time”, “família” etc…). Lembre-se do quão crucial é para sua vida este emprego. Mas tente parar para pensar se tudo isso vale à pena mesmo. Se realmente estiver convicto que sim, que este trabalho vale todo o seu entusiasmo, deve, inclusive, mudar a foto do perfil nas redes sociais, colocando o filtro com o nome e número do candidato. Mas lembre-se: “Cada escolha, uma renúncia”.

Convites para aniversários de candidatos são muito comuns nesta época. A regra básica neste caso é: veja se você foi convidado para o aniversário do ano passado. Ou melhor: tente lembrar se alguma vez você já fora convidado para algum evento do dito cujo. Se a resposta for não, apresente alguma desculpa e não precisa ir. Não estão nem aí para a sua presença. Querem é o voto. Se você garantir o voto e justificar a ausência, está tudo certo.

O período é relativamente breve. Se puder dar uma evitada em eventos sociais, vai te fazer muito bem, caso não queira topar com um chato perguntando, aos gritos, em quem você irá votar. Eles amam lugares cheios. Podem constranger muita gente. O chato não tem limites.

Por hoje é só, meu rapaz. Espero que sobrevivas sem nenhum arranhão a esta campanha. Até uma próxima. Tchau.

E o velho sábio sumiu na poeira, mas não sem antes me entregar um santinho com o número do seu candidato. Porque ninguém é de ferro.

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