
Para o cartório, o nome dela era Natividade. Pelo menos era o que dizia a certidão.
Confesso que passei boa parte da vida acreditando que aquele documento estava errado. Para a família, para os vizinhos e para praticamente qualquer ser vivo que cruzasse seu caminho, ela era apenas Dona Nazinha.
E, para mim, durante muito tempo, ela nem foi tia. Foi simplesmente Dona Nazinha.
Porque existem pessoas que ocupam tanto espaço na nossa vida que os títulos deixam de ser necessários.
Quando passei a morar sozinho, descobri rapidamente que o conceito de “morar sozinho” precisava de algumas ressalvas. Eu dormia sozinho. Mas morava de frente para a casa da Dona Nazinha.
Na prática, isso significava que qualquer movimentação suspeita na rua entrava imediatamente sob monitoramento permanente.
Bastava um carro parar em frente de casa para surgir a cena clássica. Lá estavam dois olhinhos pretos aparecendo atrás das grades do portão.
Observando. Investigando. Catalogando. Identificando.
Não importava o destino. Podia ser a igreja. Podia ser um aniversário. Podia ser trabalho. Podia ser qualquer compromisso honesto. Ou não.
O procedimento era sempre o mesmo. Eu colocava um pé para fora de casa e já vinha a sentença, atravessando a rua sem pedir licença:
- — Já vai pra putaria? Ou então:
- — Vê se não traz pixilinga pra casa!
Meus amigos morriam de rir. Eu morria de vergonha.
Mas, convenhamos, não havia muito espaço para defesa. Na visão daquela mulher que me acolheu e ajudou a criar desde os meus seis meses de vida, eu continuava sendo um sujeito preguiçoso, irresponsável e com um talento admirável para tomar decisões questionáveis.
O curioso é que essa avaliação parecia valer apenas para ela. Porque bastava qualquer outra pessoa me olhar torto para acontecer uma transformação impressionante.
Se o ditado popular diz que alguém vem com sete pedras na mão, Dona Nazinha era diferenciada. Sete pedras eram apenas o aquecimento. Ela chegava com setenta. Talvez oitenta. Dependendo da gravidade da situação.
A mesma mulher que me esculhambava em público sem a menor preocupação com a plateia era também a primeira a me defender quando alguém de fora ousava fazer o mesmo.
Era uma contradição ambulante. Ou talvez fosse apenas amor. Do jeito dela.
Meus amigos conheciam bem essa versão. Passavam pelo portão sendo recebidos por uma mulher braba, dona da razão, sem nenhuma vocação para a diplomacia.
Pouco tempo depois estavam sentados à mesa. Comendo bem. Dando risada. Escutando histórias. Sendo acolhidos como parte da casa.
Porque a verdade é que Dona Nazinha nunca aprendeu a amar através de discursos bonitos. Ela amava através do cuidado. Da vigilância. Das broncas. Da comida. Da preocupação. Da disposição permanente para ajudar. Qualquer pessoa. A qualquer momento. Desde que obedecesse aos termos e condições estabelecidos por ela.
Hoje, olhando para trás, percebo que meus amigos talvez tenham entendido algo antes de mim. Eles riam das broncas. Eu reclamava delas.
Mas todos enxergavam a mesma coisa. Toda vez que aqueles olhos apareciam atrás das grades do portão, não era fiscalização. Era amor. Do jeito dela. Que, convenhamos, era o único jeito que ela conhecia.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, eu ainda consiga ouvir a voz da Dona Nazinha atravessando a rua. Perguntando para onde eu estava indo.
Desconfiando das minhas intenções. E me lembrando, à maneira nada sutil dela, que sempre existiria alguém observando se eu estava voltando para casa.
Porque algumas pessoas passam a vida inteira cuidando da gente. E fazem isso tão bem que, em algum momento, os títulos deixam de fazer sentido.
Deixam de ser tia. Para ser mãe.
Até a próxima.
Saul Galdino

