A fome tem cara de herege — Por José Uchoa

Em novo artigo de opinião, o professor José Uchoa direciona críticas ao senador Alan Rick e questiona a coerência entre posições políticas associadas ao bolsonarismo e o discurso adotado pelo parlamentar. Sob o título “A fome tem cara de herege”, Uchoa aborda mudanças de discurso, conveniência eleitoral e a disputa por espaço na política acreana.

Leia o artigo na íntegra:

A fome tem cara de herege

Confirmando uma velha assertiva filosófica que certa vez ouvi do meu saudoso amigo Panelada, o senador Alan Rick, bolsonarista desde criancinha e negacionista de ocasião, parece ter descoberto uma nova modalidade de conversão política: a fé muda conforme a direção dos ventos eleitorais.

Para quem tanto ama, segue e procura tirar proveito eleitoral da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro, seria de esperar um pouco mais de coerência. Se é tão fiel ao seu “papai” político, por que não repete, com a mesma convicção, algumas das velhas bandeiras do bolsonarismo?

Por que não critica as vacinas?
Por que não condena o distanciamento social?
Por que não repete os absurdos ditos durante a pandemia?

Ah, mas aí entra em cena a velha matemática eleitoral: uma coisa é defender convicções; outra, bem diferente, é contabilizar votos.

E oportunismo político, convenhamos, não costuma exigir coerência. Exige apenas conveniência.

Quando o objetivo é chegar ao poder, algumas convicções parecem ter prazo de validade. Se for necessário negar amanhã aquilo que se defendia ontem, muda-se o discurso, troca-se a embalagem e segue-se em frente — de preferência, sem olhar para o espelho.

Alan Rick pode apresentar-se como novidade, renovação ou alternativa. Isso faz parte do jogo democrático. Mas o eleitor tem o direito de olhar para além da propaganda, observar a trajetória, comparar discursos e perguntar:

O que mudou de verdade?

Porque, para mim, por trás da retórica renovada há apenas mais um personagem disputando espaço no velho teatro da política acreana — onde o poder continua sendo o grande protagonista e a coerência, muitas vezes, apenas figurante.

No fim das contas, cada eleitor tire suas próprias conclusões.

Eu já tirei as minhas: não vejo novidade; vejo mais do mesmo.

José Uchoa — professor

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