
Outro dia ouvi uma música antiga e, por alguns instantes, perdi a conversa com a razão.
Talvez não fosse pela música. Talvez fosse
por tudo.
Neste ano, me despedi da mulher que me acolheu antes mesmo de nascer. De forma abrupta e violenta, a vida a arrancou do convívio daqueles que a amavam. Na mesma semana, enterrei outra pessoa importante da minha história, vencida pelo câncer.
Semanas difíceis. Emoções à flor da pele.
Enquanto eu tentava ser porto para todos.
A gente segue. Trabalha, lida com tanta gente, resolve problemas, cumpre horários. Vai empilhando responsabilidades sobre as dores, como quem acredita que o peso de uma coisa pode esconder a outra.
Mas a vida sempre encontra uma fresta.
E agora existe a possibilidade de ver minha filha ainda menos do que já vejo.
Foi aí que entendi.
Nem toda saudade é sobre quem partiu.
Algumas são sobre os momentos que talvez nunca aconteçam.
Um abraço adiado.
Uma conversa qualquer.
Uma lembrança que ficou apenas na imaginação.
Mas talvez você que me lê também carregue as suas próprias ausências. Talvez exista um nome que você evita pronunciar.
Uma fotografia que demora a olhar.
Uma ligação que nunca mais acontecerá.
Ou alguém que continua vivo, mas distante o suficiente para transformar presença em saudade.
E eu lhe pergunto:
Quando foi a última vez que você tirou a armadura?
Quando foi a última vez que você se permitiu sentir, sem se preocupar com o que os outros pensariam?
Sem esconder a lágrima. Sem mudar de assunto.
Sem fingir que estava tudo bem.
Vivemos numa pressa tão grande para seguir em frente que, às vezes, esquecemos que algumas dores precisam apenas ser sentidas.
Talvez por isso eu tenha chorado. Não por fraqueza.
Mas porque o coração, às vezes, precisa nos lembrar que ainda ama. E quem ama, inevitavelmente, sente falta.
Muito mais do que gostaria.
Outro dia ouvi Gonzaguinha cantando que um homem também chora. Confesso que sempre entendi o verso.
Mas há certas verdades que só compreendemos quando elas nos atravessam.
Hoje, entre lembranças, despedidas, saudades e incertezas, descobri que algumas emoções não precisam ser explicadas.
Se um homem também chora… Hoje eu chorei.
Até a próxima.
Saul Galdino

