O Valor das Coisas – Saul Galdino

Já reparou que quase tudo parece perder valor com o tempo?

O carro perde valor ao sair da concessionária. O celular, assim que deixa de ser novidade. O alimento, ao ultrapassar a data de validade. Há até relações que parecem perder a importância quando deixam de atender a uma necessidade imediata.

Tenho vivido dias nebulosos, e essa reflexão não nasceu por acaso.

Recentemente, ofereci uma oportunidade de trabalho a um amigo. O que, a meu ver, poderia ajudá-lo a reorganizar a vida financeira acabou se transformando, ao final da jornada, em um mar de lamentações, insatisfação e desmotivação. Aquilo que parecia tão valioso no início já não possuía o mesmo brilho no momento da despedida.

Para uma empresa, ofereci o melhor trabalho que minhas circunstâncias permitiam. Enquanto o projeto seguia seu curso, a comunicação era abundante, quase sufocante. Cada passo parecia exigir uma nova conversa, um novo alinhamento, uma nova urgência. Curiosamente, quando a missão foi cumprida e restaram apenas pequenos pontos a serem resolvidos, o fluxo cessou. Onde antes havia vozes, mensagens e demandas incessantes, instalou-se um silêncio ensurdecedor.

Talvez porque, assim como tantas coisas na vida, o valor do trabalho estivesse mais na necessidade do que na sua realização.

Mas talvez o maior reflexo desse desgaste não tenha surgido no campo profissional. Ele apareceu dentro de casa.

Dizem que todo relacionamento exige parceria. No meu caso, a parceria vinha com direção hidráulica, tanque cheio e GPS atualizado. Durante muito tempo, exerci com dedicação a nobre função de motorista oficial da minha companheira. Se existisse um programa de milhagem afetiva, eu certamente já teria alcançado a categoria diamante.

O problema é que nem todo veículo roda indefinidamente sem manutenção.

Depois de jornadas que frequentemente ultrapassavam dezesseis horas entre trabalho, compromissos e correria, a disposição começou a apresentar sinais claros de pane. Foi quando as negativas ocasionais passaram a gerar ruídos, e os ruídos, discussões.

Hoje penso que não era apenas sobre caronas. Era sobre presença, expectativas e desgaste. Eu via as cobranças que chegavam até mim, mas demorava a enxergar que o cansaço também falava através das minhas respostas. E, enquanto procurava entender por que algumas pessoas pareciam deixar de valorizar aquilo que recebiam, não percebia que eu próprio estava deixando de valorizar a delicadeza necessária para cuidar de quem caminhava ao meu lado.

E aqui faço uma confissão importante: eu também errei.

O acúmulo de estresse, as cobranças constantes e uma rotina quase homérica fizeram com que eu ultrapassasse limites que não deveriam ter sido ultrapassados. Em alguns momentos, minha impaciência falou mais alto. Em outros, permiti que o desgaste tomasse o lugar da compreensão.

Curioso, não?

Enquanto observava pessoas que pareciam ter deixado de valorizar oportunidades, esforços e relações, percebi algo muito mais desconfortável: eu mesmo havia feito o mesmo.

Também desvalorizei. Talvez não um trabalho. Talvez não uma oportunidade. Mas a paciência. A serenidade. A capacidade de compreender que cada pessoa carrega suas próprias expectativas, cansaços e limitações.

No fim, resta a figura do cão arrependido tentando alcançar o caminhão do perdão.

E resta, sobretudo, a lição: os defeitos que mais enxergamos nos outros costumam morar, silenciosamente, dentro de nós. Às vezes, aquilo que observamos, criticamos e cobramos do mundo não passa do reflexo que o espelho insiste em devolver.

Talvez o verdadeiro valor das coisas não esteja no momento em que precisamos delas, mas na capacidade de reconhecermos sua importância quando já não somos obrigados a fazê-lo.

Só então descobrimos que alguns bens não se medem em dinheiro, utilidade ou conveniência. Medem-se em gratidão, respeito e presença. E estes, quando perdidos, não podem ser comprados novamente na próxima loja, na próxima oportunidade ou no próximo relacionamento. Precisam ser reconstruídos, dia após dia, com a humildade de quem finalmente entendeu que também faz parte daquilo que tanto critica.

Até a próxima!

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