Reflexões sob o sol da campanha – O cansaço, a política e o trabalho invisível

Entre dias de calor quase insuportável, cercados por bandeiras de candidatos e jingles dos mais diversos — que geralmente geram mais barulho do que votos —, o cansaço típico desse ritual chamado eleição bateu mais forte do que em campanhas anteriores.

Contudo, por trás da barulheira e do desgaste inevitável, um detalhe específico me chamou a atenção e exigiu uma pausa: o julgamento automático que recai sobre quem está na linha de frente balançando os estandartes. É fácil esquecer que ali, sob o asfalto derretendo, existe um trabalhador cumprindo a sua diária, tentando manter o seu sustento ou alimentando o sonho distante de uma vaga ao lado dos “amigos do rei”.

Quando foi que nos tornamos tão altivos a ponto de nos acharmos melhores do que aqueles que ganham a vida na militância contratada?

Qual é a real distância ética entre o garçom que suporta o salão lotado, atendendo dezenas de pessoas de todos os níveis sociais e de “educação”, e o promotor de rua que também está ali servindo por um propósito elementar? No fim das contas, a motivação é a mesma de qualquer trabalhador: garantir o pão de cada dia, pagar a conta de luz acumulada e atravessar o mês em pé. A engrenagem pode ser cínica, mas a fome e os boletos são perfeitamente reais.

A nossa indignação com o espetáculo político rasteiro muitas vezes perde o alvo. Descarregamos frustrações acumuladas sobre quem tem o menor poder de barganha na estrutura social.

Portanto, ao ver alguém sob um sol inclemente, balançando bandeiras, distribuindo santinhos ou exercendo funções afins, é preciso exercitar o discernimento. Jamais confunda a aversão legítima ao sistema político e suas mazelas com o desprezo por quem está apenas tentando sobreviver dentro dele.

Até a próxima

Saul Galdino

Autor

Notícias relacionadas :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS