Rodrigo Farias
Quando fui convidado pelo amigo José Uchoa para passar três dias e duas noites no Seringal Nazaré, colocação Monte Santo, na Reserva extrativista Chico Mendes, não pensei duas vezes e confirmei. Mesmo sem ter dito nada em casa, para a esposa e os filhos. Passei quatro dias com a adrenalina à flor da pele. Para um cara extremamente urbano, como eu, ter a oportunidade de passar duas noites na Floresta Amazônica preservada, poderia significar a experiência mais assustadora e enriquecedora da minha vida.
– Onde vamos dormir? Foi a primeira de dezenas de perguntas que fiz ao amigo nos três dias que antecederam a viagem.
– Onde faremos nossas necessidades e tomaremos banho? Prossegui com as perguntas.
O Uchoa nunca vendeu um mínimo de conforto que sabia que não poderia entregar.
– Dormir na rede ou barraca e cagar no mato. Mas você vai adorar. Confie em mim.
Confiei! E tive a experiência mais alucinante da minha vida. Algo difícil de descrever ou imaginar apenas com fotos e relatos. Vida selvagem real na veia! Bem diferente dos livros de História e minisséries da TV.
Saímos de Rio Branco às 6h, rumo a Xapuri. Das quatro pessoas no carro, eu era a única que nunca tinha ido para um lugar tão selvagem, tão nativo. É isso mesmo, não estamos falando de zona rural, e sim de Floresta Amazônica intacta. Não é um fim de semana na colônia ou fazenda, estamos falando de três dias na mata, dormindo em rede ao relento, à mercê de todo tipo de imprevisto e ataques que minha imaginação de garoto da cidade poderia prever. Após chegarmos em Xapuri e atravessarmos a ponte para a Sibéria, pegamos o ramal sentido à Reserva Extrativista Chico Mendes.

Depois de alguns quilômetros, chegamos na Colocação Guarani, ponto central da tradicional Romaria de São João do Guarani, uma das manifestações culturais e religiosas mais antigas da Amazônia. Lá funciona também a Escola Estadual Rural Padre Jósimo, último ponto em que minha internet funcionou, último contato com a família e a “civilização”. Seguimos viagem.


Poucos minutos após, a primeira barreira: uma caminhonete dos Bombeiros havia errado a curva e caído no igarapé. O mais inusitado da história é que eles traziam uma senhora que tinha passado mal do coração em alguma colocação mais adentro. Quando chegamos, a senhora já havia sido resgatada por um carro do Deracre (Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre). Uma máquina estava atravessada no ramal (estrada secundária de terra que dá acesso a comunidades rurais) para tentar puxar a viatura. Isso custou alguns muitos minutos da nossa viagem, mas deu tudo certo e a caminhonete foi içada. Seguimos.

Após chegarmos à última colocação que era possível ir de carro, na casa do Seu Buchudo (uma personalidade ímpar, 74 anos vivendo na floresta – falaremos mais sobre ele em um próximo artigo), só tínhamos duas maneiras de prosseguir: caminhando em uma minúscula trilha entre a mata bruta ou fazê-la de moto com um dos nativos que estavam ali já prontos para nos servir. A presteza e cordialidade deles também merecerão um texto exclusivo.

Entre o medo da floresta e de seus habitantes naturais (cobras, onças, veados, aranhas escorpiões…) e o meu pavor de andar de moto, fiquei com a segunda opção. Aproximadamente 20 minutos na garupa de uma moto em um rali altamente radical. Acho, inclusive, que não existe um rali com tantos obstáculos e ladeiras íngremes, esburacadas e estreitas, com trilhas da largura da moto. Dois palmos para um lado ou outro da motocicleta, apenas Floresta Amazônica. Capacete e equipamentos de segurança? Esquece! Ninguém lá usa essas coisas. Eu achava, inocentemente, que esse seria o meu maior medo. Tenho pavor de moto… não ando de moto. Mas tive que andar! E logo no meio da floresta. Segui! Apenas com uma mochila nas costas.

O restante das nossas bagagens, bolsas e redes de dormir iriam mais tarde, no lombo de um burro, quando o sol desse uma amenizada. O calor estava infernal. Passado o sufoco com a moto e após aproximadamente seis horas desde que saí de Rio Branco, enfim cheguei ao meu destino: Seringal Nazaré – Colocação Monte Santo. Casa do casal Bastião e Dona Lúcia. O motoqueiro que me levou foi o jovem Raylan, de 20 anos, filho deles.

Do alto da pequena varanda, da casa construída por eles com madeira da própria região, meus olhos registravam a imensidão verde à minha frente e brilhavam, como brilham os olhos de um adulto quando vê o mar pela primeira vez. Mas fui interrompido por Dona Lúcia com um copo de vidro de massa de tomate, uma garrafa de café e uma vasilha nas mãos.
– Tome um café e coma uma paca guisada, que o Raylan caçou esta madrugada para vocês.

Não fui a essa expedição para comer amendoim e assistir tudo de fora. Fui tentar aprender, entender e, minimamente, viver como eles. Guardei os meus conceitos no fundo da mochila, tomei o café e, sim, provei a paca caçada em minha homenagem. Estava uma delícia! Como foram deliciosos os dois dias naquele lugar, onde as horas parecem não passar, a vida acontece, mas não aparece no mapa.

