Rodrigo Farias

Passado o deslumbramento, narrado no texto anterior, com aquela imensidão verde à minha frente, depois de ter tomado cafezinho no copo Cica e provado a paca guisada, que fora caçada especialmente para nós pelo jovem Raylan, filho de Bastião e Dona Lúcia, os donos da colocação, puxei a primeira conversa com Bastião, que, sentado à nossa frente, observava tudo em absoluto silêncio, mas sempre com um sorriso tímido e sincero no rosto.
– Muito lindo tudo aqui. Tem muita onça por aqui? – perguntei, sem disfarçar a preocupação.
– Hoje em dia está mais difícil aparecer. Um tempo atrás apareceu uma comendo meus animais – respondeu serenamente, sem precisar há quanto tempo havia ocorrido o fato e olhando para o curral que ficava a cerca de 20 metros à nossa frente e a uns 10 metros da casa de farinha, onde eu iria armar minha rede para dormir.

Com um sorriso mais tímido que o do Bastião e tentando disfarçar o temor, quis logo conhecer a tal casa de farinha, onde tinha ficado acordado que eu iria dormir, acompanhado do professor José Uchoa. Os outros dois integrantes da expedição iriam atar suas redes na varanda da casa.
Colocação é uma área de mata onde o seringueiro vive e trabalha. Geralmente é formada por uma casa e pelas estradas de seringa, os caminhos que levam às árvores de onde é extraído o látex. Cada colocação funciona como uma pequena propriedade, onde a família organiza a rotina de trabalho e sobrevivência.
A casa de farinha da Colocação Monte Santo, no Seringal Nazaré, ficava a cerca de trinta metros de distância da casa e fazia algum tempo que não era mais utilizada para produzir farinha. Parecia estar funcionando mais como um museu de peças de motos do Raylan. Era um quadrado cercado por arame farpado de um lado, arame liso do outro e um portão de madeira que não fechava. Ou melhor, fechava e abria conforme o vento. Era naquele local que eu iria dormir duas noites.
Em um local onde raramente aparecem visitantes, ter quatro pessoas da capital é motivo de “casa cheia”. Passamos a tarde recebendo visitas das pessoas de colocações próximas. Alguns chegavam de moto, outros a cavalo e alguns a pé mesmo. Causos fantásticos regados a sarapatel de porquinho-do-mato, macaxeira cozida e torresmo do porco caipira que encomendamos antes de irmos para lá. Cachaça e cerveja que havíamos levado na geleira em uma das viagens da moto harmonizavam a refeição e animava as conversas. Uma tarde extremamente agradável, de muito bate-papo e aprendizado sobre a sabedoria daquela gente simples e rica em conhecimento e histórias. Cada pessoa é um personagem!

Mas, entre um bate-papo e outro, uma preocupação teimava em me atentar. Onde se tomava banho e, principalmente, para que lado do mato eu iria caso uma inconveniente dor de barriga chegasse? E se a vontade viesse à noite, quando todos já tivessem se recolhido e o breu tomasse conta do lugar?

A “casa de banho” ficava próxima à casa de farinha. Era só descer um pequeno espaço entre um bananal e um campo que fora queimado pelo Bastião para que, segundo ele, as cobras não fizessem ninho ali perto da casa e permanecessem na mata. Era uma fonte d’água que descia da floresta e parava em uma espécie de cacimba construída por Bastião. Era só abaixar, encher uma panela sem tampa, que servia como cuia, e jogar água gelada e deliciosa no corpo. Um bom banho!
O que não era tão bom era a subida e descida entre o bananal e o campo queimado para afastar as cobras, que me pareceu ser o único animal que impõe um certo medo e cuidado por parte dos nativos. Ai, meu Deus… e se me der dor de barriga durante a noite?

O dia passou de forma agradável e lenta, mas a indefectível noite foi chegando. Com ela, as apreensões teimavam em me cutucar a mente. Será escuro total? Só a lanterna do celular para iluminar uma possível ida ao “banheiro” será sufuciente? Neste momento, eu já tinha escolhido a mata do lado oposto ao curral para ser o meu “toalete”.
Jantamos todos juntos na casa de farinha. A família completa — Bastião, Dona Lúcia e Raylan, e nós quatro. Eu tinha pesquisado na internet antes de ir que não se deve deixar nenhum vestígio de comida por perto durante a noite, porque pode atrair animais. Isso me fez saborear a magnífica galinha caipira que Dona Lúcia havia preparado com uma certa preocupação: deixar tudo limpo!

Já estava escuro, e a única fonte a nos iluminar eram duas latas queimando sarnambi.
Sarnambi é um coágulo natural de látex que sobra ou se forma espontaneamente na seringueira. Por ser altamente inflamável, devido à sua composição de borracha crua, é usado como acendalha ou combustível nos seringais.

Após tudo limpo e as redes atadas, todos se recolheram e só restamos eu, o professor José Uchoa e a imensidão do céu e da selva.
Foi uma noite tranquila. Levantei somente duas vezes para urinar e não tive vontade de fazer cocô. Não foi dessa vez que o mato me serviria de privada.
Acordei por volta das 4h, ainda escuro, quase amanhecendo, com um som que parecia motor de alguma coisa, vindo da floresta. Depois fui informado que era um bando de macacos-capelões fazendo farra no meio da mata.
Ao amanhecer, nosso café da manhã foi sarapatel de porco caipira, macaxeira cozida e café preto no copo Cica.
Que venha o segundo dia!
Leia o texto 1 – A chegada – clicando aqui
