O Peso do Quase — Saul Galdino

Quase sete da manhã. A corrida contra o relógio já havia começado. Centenas de carros compartilhavam o mesmo espírito: chegar ao trabalho, à faculdade, à consulta médica ou a qualquer outro compromisso que não esperaria por ninguém. A rotatória andava devagar, o trânsito parecia estacionado e todos olhavam de um lado para o outro com a impaciência típica de quem acredita que o tempo está acabando.

Foi quando encontrei uma brecha. Entrei.

Segui.

O carro ao lado freou bruscamente. Veio o susto. Logo depois, a buzina. E, sem perder tempo, o motorista emparelhou comigo, baixou o vidro e começou a despejar sua indignação.

  • — Tu é maluco? Quase fez eu bater em você!

Olhei para ele com a calma que, sinceramente, nem sei de onde veio naquela manhã.

  • — Tá bom. Quase bateu. Mas e aí? Qual foi o dano? Qual foi o prejuízo? Aconteceu alguma coisa?

Por alguns milésimos de segundo, ele pareceu desnorteado. Como se aquela não fosse a resposta esperada. Como se, de repente, tivesse sido obrigado a olhar para a situação por outro ângulo.

Mas logo retomou sua convicção.

  • — Mas quase bateu!
  • — Sim. Quase bateu. Mas não bateu. Segue teu caminho.

Fechei o vidro. O semáforo abriu. E cada um de nós seguiu seu rumo.

Mas o curioso é que a discussão terminou ali, enquanto o “quase” continuou viajando comigo durante o restante do dia.

Porque talvez uma boa parte dos nossos sofrimentos venha exatamente dele. Do quase.

Sofremos pelo que quase aconteceu. Brigamos pelo que quase aconteceu.

Perdemos noites de sono pelo que quase aconteceu.

Gastamos energia, neurônios e tempo discutindo situações que passaram perto de existir, mas nunca chegaram a acontecer de verdade.

O motorista daquela manhã não estava irritado por causa de um acidente. Estava irritado por causa da possibilidade de um acidente. O objeto da sua raiva não era um fato. Era uma hipótese.

E quantas vezes fazemos exatamente a mesma coisa? Quantas discussões nascem de interpretações?

Quantos relacionamentos se desgastam por cenários imaginários? Quantas oportunidades deixamos passar por medo de algo dar errado?

Quantas vezes sofremos por antecipação, apenas para descobrir, mais tarde, que aquilo que tanto nos preocupava jamais aconteceu?

Talvez o trânsito seja apenas um retrato em miniatura da vida. Uma fechada vira discussão.

A discussão vira ofensa. A ofensa vira agressão. E, não raramente, tragédias começam justamente a partir de algo que, em sua origem, era apenas um quase.

Um susto. Uma possibilidade. Uma hipótese. Nada mais.

Claro que o quase tem sua utilidade. Ele serve como alerta. Ensina. Faz refletir. Mostra riscos. O motorista que quase bate presta mais atenção no próximo cruzamento. O empresário que quase faliu revê suas contas. O casal que quase terminou percebe aquilo que precisa ser corrigido.

O problema não é o quase. O problema é construir morada dentro dele. É transformar uma possibilidade em residência permanente. É deixar que algo que não aconteceu ocupe mais espaço do que aquilo que está acontecendo agora.

Por isso, enquanto seguia viagem naquela manhã, concluí que algumas batalhas simplesmente não merecem ser travadas. O que aconteceu, aconteceu. O que pode acontecer, o tempo dirá.

Mas o que não aconteceu não merece roubar a paz do presente.

E talvez seja por isso que uma frase sempre me volta à memória. Aquela eternizada em Filtro Solar:

“Preocupação é tão eficiente quanto mascar chiclete para resolver um problema de matemática.”

E, pensando bem, talvez seja mesmo.

Passamos boa parte da vida mastigando preocupações, remoendo possibilidades, ensaiando tragédias e discutindo hipóteses. Enquanto isso, a vida real segue seu curso. Sem quase. Sem talvez. Sem imaginação. Apenas acontecendo.

E o agora, diferente do quase, é a única coisa que realmente existe.

Até a próxima.

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