Eu Não Sou Lula – Saul Galdino

Como quase sempre acontece, meus pensamentos costumam chegar embalados por alguma música. Às vezes é um refrão qualquer, às vezes uma frase solta que surge no momento certo e se recusa a ir embora.

Hoje foi ouvindo “Democracia”, do Poetas no Topo, que me peguei refletindo sobre um trecho que dizia:

“Eu não sou Lula, sou ProUni, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Mais Médicos, Vale Gás, saúde grátis, direitos trabalhistas e programas sociais.”

E, por alguns instantes, deixei a música de lado para prestar atenção ao que aquelas palavras significavam. Não enxerguei ali um homem. Não enxerguei um partido. Enxerguei políticas públicas, oportunidades e impactos na vida de milhões de brasileiros. Concorde-se ou não com elas, é inegável que existe uma diferença enorme entre discutir nomes e discutir resultados.

O que mais me causa perplexidade neste período eleitoral é perceber como pessoas que sempre considerei inteligentes, instruídas, bondosas e equilibradas parecem, de repente, incapazes de enxergar o tamanho do que está em jogo.

São amigos maravilhosos. Pessoas esclarecidas. Profissionais competentes. Gente que admiro. Mas que, diante da política, parecem abandonar o senso crítico para agir como torcedores.

E talvez seja justamente isso que mais me assuste.

Não a existência de opiniões diferentes, porque elas são naturais e necessárias em qualquer democracia. O que me preocupa é quando a torcida passa a valer mais do que os fatos. Quando o desejo de derrotar um adversário se torna mais importante do que discutir qual futuro queremos construir.

O país parece cada vez mais dividido, hostil e incapaz de dialogar.

Vivemos tempos curiosos. Os autoproclamados patriotas muitas vezes demonstram mais admiração por outras nações do que pelo próprio povo brasileiro. O que antes parecia óbvio agora é tratado como absurdo. O certo virou errado, e o errado virou apenas uma questão de narrativa.

Vejo trabalhadores defendendo interesses de grandes empresários como se fossem os seus próprios interesses. Vejo pessoas que dependem integralmente do SUS defendendo sua privatização total, mesmo sem conseguir comprar uma simples caixa de dipirona em uma farmácia sem sentir o peso no orçamento.

E não, isso não significa que a saúde pública esteja perfeita. Longe disso. Ela precisa melhorar muito. Mas há uma enorme diferença entre reconhecer problemas e desistir da ideia de que saúde deve ser um direito acessível a todos.

Também me causa estranheza a forma como certos assuntos recebem pesos tão diferentes no debate público.

Uma história mal contada sobre um triplex é capaz de despertar revolta por anos. Enquanto isso, denúncias envolvendo dezenas de imóveis adquiridos em dinheiro vivo ou esquemas de rachadinha acabam sendo relativizadas, justificadas ou até ignoradas por aqueles que exigiam tolerância zero quando o acusado era alguém do outro lado.

Não escrevo isso para convencer ninguém.

Escrevo porque sinto que, em algum momento, deixamos de discutir projetos de país e passamos a discutir personagens.

Como se a política fosse uma disputa entre heróis e vilões.

Como se um lado fosse incapaz de errar e o outro incapaz de acertar.

A música terminou. O trânsito continuou. O mundo seguiu seu ritmo habitual. Mas aquela frase permaneceu na minha cabeça.

Talvez porque ela me lembrou de algo simples: presidentes passam, mandatos terminam e partidos mudam. O que permanece são os efeitos das decisões tomadas durante esses períodos.

No fim, eu não deveria votar por paixão. Não deveria votar por ódio. Não deveria votar para derrotar alguém.

Deveria votar pensando em quem precisa de uma escola, de um hospital, de um emprego, de uma oportunidade.

Porque quando a eleição termina, os políticos voltam para Brasília.

Nós é que continuamos aqui. Vivendo as consequências das escolhas feitas nas urnas.

Até a próxima.

Saul Galdino

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