No texto anterior, depois de Hobbes, Aristóteles, Stephen Holmes e tantos outros terem sido convocados ao debate no Supremo, terminei com uma provocação: talvez ainda houvesse lugar naquela mesa para Sócrates.
Pensando melhor, havia.
Enquanto os ministros discutiam relatoria, competência, avocatória, procedimentos e limites institucionais, permanecia ao fundo aquilo que havia levado todos até ali: as relações reveladas ou sugeridas pelo material extraído do celular de Daniel Vorcaro.
E elas não eram todas iguais. Havia mensagens, encontros, pedidos de aproximação, intermediários, referências e contatos envolvendo autoridades e pessoas próximas daquele universo de poder.
Talvez Sócrates começasse justamente aí.
Hobbes já havia sido chamado para advertir sobre o poder sem limites. Aristóteles, para lembrar a virtude e a moderação. Holmes, para defender o método e os protocolos.
Sócrates poderia simplesmente devolver o debate àquilo que parecia escapar por entre tanta sofisticação jurídica:
— Que relações são essas?
E talvez insistisse:
— O que aproxima um banqueiro de tantas figuras que ocupam ou orbitam posições relevantes de poder?
Não seria uma acusação. Proximidade não é crime, tratamento informal não prova favorecimento e relações pessoais não transferem responsabilidades.
Mas essas ressalvas não eliminam as perguntas.
O que se busca nessas aproximações? O que elas oferecem a cada lado? Por que se estabelecem?
Talvez fosse essa a contribuição de Sócrates àquela guerra de narrativas: não outra resposta erudita, mas perguntas suficientemente simples para atravessar a cortina de complexidade que tomou conta do debate.
Depois de tanta discussão sobre quem deveria investigar, quem poderia relatar, quais procedimentos seriam válidos e quais limites deveriam prevalecer, talvez ainda faltasse perguntar com a mesma intensidade:
O que, afinal, havia para ser investigado?
Sócrates não precisaria responder.
Bastaria não deixar a pergunta desaparecer.
Cleib Lubiana – psicólogo
