Inácio Moreira diz que vai retirar “porta-voz do Lula” de seu perfil: ‘Não é justo’

O professor Inácio Moreira tem 56 anos, nasceu em Rio Branco e tem orgulho de ser do bairro das Placas, como costuma afirmar em vários vídeos que publica nas redes sociais. Foi por meio delas que conseguiu passar seu recado durante a campanha, quando concorreu ao Senado pelo PSOL. Com pouco tempo na TV e praticamente sem recursos, Moreira apostou no corpo a corpo e na comunicação digital. Deu bom! Obteve quase 20 mil votos, dos quais mais de 13 mil na capital.

Nesta quarta-feira (28), o AC em Pauta bateu um papo com o autointitulado porta-voz do presidente Lula no Acre para falar sobre a campanha de 2026, o cenário político após as eleições e os planos do professor para o futuro.

ACP: Passada a eleição, é hora de todos descerem do palanque: quem ganhou vai administrar e quem perdeu vai fazer oposição. Mas como pensar em um cenário de racionalidade com o país pegando fogo desse jeito?

Inácio: O clima de disputa vai continuar no país. As eleições foram muito próximas. O Brasil está dividido. Com a composição do Congresso Nacional, a disputa tem que ir para as ruas, porque foram elas que tiveram papel decisivo na vitória da democracia e da soberania nacional.

O presidente Lula vai ter que fazer uma escolha neste quarto mandato: ou se submeter a uma composição dos ministérios, cedendo espaços aos seus inimigos políticos, ou construir uma aliança mais forte com quem lhe deu a vitória: a juventude e a terceira idade que foram às ruas.

A opção de fazer política com o Congresso tem que estar acompanhada de uma forte articulação com os movimentos sociais, para evitar que as negociações sejam tão draconianas a ponto de permitir que o Congresso se aposse dos recursos públicos por meio de emendas parlamentares.

ACP: Olhando para o nosso quintal, a eleição de 2026 deixou ensinamentos para o senhor? O número de votos, sobretudo em Rio Branco, o surpreendeu ou correspondeu às expectativas?

Inácio: O que mais me surpreendeu foi ter votos nos 22 municípios. Essa votação consolidou uma estratégia de comunicação por meio das redes sociais, com vídeos, conteúdos e bandeiras de luta que foram abraçadas pela sociedade progressista. Fiquei muito feliz porque também fui abraçado por essa parcela da sociedade. A Ufac e a ciência foram barreiras que impediram que o pragmatismo eleitoral fizesse com que a nossa candidatura fosse diluída ou até mesmo ridicularizada. Pelo contrário: estamos em um processo pós-eleitoral, abraçados com a juventude e a sociedade progressista, comemorando a vitória do presidente Lula.

ACP: O senhor tem dito, desde a campanha, que é o porta-voz do presidente Lula no Acre. Por que o senhor e não outras lideranças da esquerda?

Inácio: Sobre essa questão do porta-voz, essa foi uma estratégia criada ainda no primeiro turno, liderada pelo (Guilherme) Boulos, que criou um grupo de porta-vozes do Lula. Então, no Brasil inteiro, inclusive no Acre, o Lula tem vários porta-vozes. Foi uma estratégia que não deu muito certo. Aí, o Janones, no segundo turno, conseguiu criar aquela estratégia que foi o Exército do presidente Lula, que é a estratégia mais conhecida hoje.

Como, no primeiro turno, quem foi candidato estava mais preocupado com seu projeto eleitoral, seja para deputado estadual, federal ou senador, não foi possível que essas pessoas assumissem e gastassem parte do seu tempo fazendo a campanha do presidente Lula. Como a minha preocupação, enquanto candidato a senador, foi focada em propostas, minha aliança com o presidente Lula é baseada em propostas de um Estado social forte, que atenda à população mais carente.

Então, acabei tendo que assumir, de uma forma mais incisiva, essa questão de ser o porta-voz do presidente Lula. Mas isso cumpriu uma etapa na campanha. Acho que, no segundo turno, muitos dos que tinham sido eleitos e outros que já tinham perdido a disputa se dedicaram e foram tão ativos quanto eu na defesa do presidente, principalmente a juventude e os idosos.

Eu acho que não cabe mais esse termo para mim. Inclusive, acho que nem é justo. Estou, inclusive, retirando do meu perfil a foto em que apareço ao lado do presidente Lula e o título de porta-voz do presidente. Porque esse título agora é da sociedade progressista, da sociedade acreana e de vários brasileiros e brasileiras que são, de fato e de direito, todos porta-vozes do presidente.

“Eu acho que não cabe mais esse termo para mim. Inclusive, acho que nem é justo. Estou, inclusive, retirando do meu perfil a foto em que apareço ao lado do presidente Lula e o título de porta-voz do presidente. Porque esse título agora é da sociedade progressista, da sociedade acreana e de vários brasileiros e brasileiras que são, de fato e de direito, todos porta-vozes do presidente”.

ACP: A política olha para a frente. Passada uma eleição, já se pensa na próxima. Inegavelmente, o senhor saiu deste pleito maior do que entrou. E o futuro? Eleições de 2028? Já parou para pensar nisso?

Inácio: Essa é a pergunta que muitos têm feito. Eu represento um grupo e represento uma geração. No momento certo, a gente vai tomar uma decisão. Eu sempre estive na política, desde os 14 anos. Claro que, do ponto de vista eleitoral, essa foi a minha grande disputa. Devido à quantidade de votos que obtivemos, acabamos recebendo muitos convites. Estou visitando as pessoas para agradecer os votos e ouvi-las. Confesso que ainda estou um pouco assustado com tudo o que aconteceu. As pessoas estão me abraçando, pedindo para tirar fotos. Tudo isso é novidade para mim, porque sou um cidadão comum, que mora nas Placas. Sou professor e isso não fazia parte da minha rotina. Cada voto recebido exige de mim muita responsabilidade.

Autor

  • Rodrigo Farias

    Jornalista com atuação em rádio, televisão, web e assessoria de imprensa. Foi colunista dos portais Diário do Acre, Correio 68, O Acre Agora e AC em Pauta. Na TV Tribuna, atuou como repórter, analista político e editor. Foi coordenador de Comunicação da Prefeitura de Rio Branco. É autor dos livros “Vem comigo... no caminho eu explico!” e “Papo de elevador”. Atualmente, é editor do portal AC em Pauta.

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