
Sentado à mesa de um bar qualquer, observo a engrenagem fria da noite contemporânea. Nas garrafas de rótulos importados rigorosamente alinhadas sobre as mesas, nos visores reluzentes dos celulares e nas chaves de caminhonetes estrategicamente expostas ao lado dos copos, desenha-se um espetáculo onde todos atuam, mas poucos verdadeiramente vivem. Há um ruído constante de risadas altas e brindes bem ensaiados, mas, se você apurar o ouvido, escuta apenas o eco de um vazio coletivo que se espalha por cada esquina, cada balcão, cada encontro casual.
Eu venho de um tempo em que as relações não traziam em si uma tabela de cotação. Um tempo em que um sujeito “liso” — sem sobrenome de peso, sem conta bancária recheada e sem adereços de luxo, podia sair para uma festa, encostar num balcão e simplesmente conversar. A aproximação acontecia no terreno puro da afinidade: o olhar que sustentava a conversa, a piada compartilhada, a curiosidade genuína pelo mundo do outro. Se houvesse química, o laço se criava ali. Não era motivo de vergonha encostar a bicicleta no portão da casa de uma pretendente, porque o transporte era apenas o meio; o fim era o encontro entre duas pessoas dispostas a se conhecer a partir do que traziam no peito, não no bolso.
Hoje, no entanto, a dinâmica do afeto foi engolida pela lógica do hiperconsumo. Transicionamos de um modelo baseado na convivência e na troca humana para um mercado afetivo altamente mercantilizado, onde o indivíduo passa por um doloroso processo de coisificação. Quando a validação em uma mesa de bar depende da escolha entre uma cerveja comum e um rótulo de grife, a pessoa deixa de ser vista como um sujeito único e passa a ser avaliada como um pacote de recursos. Um mero acessório de imagem destinado a compor a moldura de uma vida de aparências.
Esse fenômeno não se restringe ao interesse financeiro direto; ele se manifesta em um envolvimento anestesiado e superficial em cada lugar. Nas redes sociais e na vida presencial, a relação virou uma vitrine. O parceiro ou a parceira precisa “servir para a foto”, precisa agregar valor estético e status social ao portfólio de quem o exibe. Entra em cena aquilo que o sociólogo Zygmunt Bauman definiu como amor líquido: relacionamentos pautados pela mesma dinâmica dos bens de consumo. Se algo dá trabalho, se exige paciência ou se deixa de gerar o retorno imediato de imagem, descarta-se. A urgência do consumo transformou a busca por conexão em uma caça frenética por novidade, em que corpos se cruzam sem que as almas cheguem sequer a se notar.
O resultado dessa matemática fria é uma crise profunda na estabilidade dos afetos. Se o vínculo é construído sobre o ter — sobre o carro que se dirige, o camarote que se frequenta ou a bebida que se ostenta —, a relação torna-se estruturalmente frágil. Qualquer oscilação financeira, qualquer desgaste do cotidiano ou a simples aparição de alguém com recursos superiores deflagra a sensação iminente do descarte. Mais do que isso, a própria necessidade de parecer inabalável e bem-sucedido cria uma barreira contra a vulnerabilidade. Ninguém se mostra por inteiro; todos entregam apenas performances. E sem vulnerabilidade, não há intimidade real.
Trancadas nessa exigência de perfeição estética e material, uma utopia irrealizável, as pessoas acumulam encontros rápidos e conversas genéricas. Bebe-se para anestesiar a desconexão; frequenta-se o lugar da moda para provar que se esteve lá, consome-se a presença do outro como quem consome um produto de prateleira. O cotidiano real, contudo, exige tolerância, construção gradual e apoio mútuo. Virtudes que a cultura do descarte rápido não consegue cultivar.
O efeito colateral dessa engrenagem é visível nas estatísticas e no ar: o aumento vertiginoso no número de divórcios, a proliferação de relações infrutíferas e uma sensação generalizada de solidão acompanhada.
Gerações inteiras estão se alimentando de migalhas de atenção, ostentando o que aparentam ser enquanto acumulam uma profunda indigência afetiva. Trocou-se a profundidade pela imagem, a estabilidade pela aprovação fugaz de desconhecidos.
Olho novamente ao redor. As luzes do bar piscam, a música alta tenta preencher os silêncios não ditos e mais uma rodada de copos caros é servida. Mas, no fundo daquele barulho todo, é impossível não se perguntar: quantos ali, no meio de tantas taças cheias e conversas vazias, não estariam secretamente exaustos desse teatro, torcendo apenas para poder encostar a bicicleta no portão de alguém e ser acolhidos, finalmente, pelo simples e raro privilégio de ser quem são?
Até a próxima!
