Em visita ao Acre, o pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), Edmilson Costa, concedeu entrevista ao portal AC em Pauta nessa quarta-feira (29), no Café com Poesia, localizado no bairro Bela Vista, em Rio Branco. Durante a conversa, o presidenciável abordou temas nacionais e apresentou propostas que pretende defender caso seja eleito. Entre os assuntos, falou sobre a intenção de estatizar todas as universidades do país, confirmou Eudo Raffael como pré-candidato do PCB ao Governo do Acre e elogiou a culinária acreana, destacando a boa impressão que teve durante sua terceira visita ao estado.

AC em Pauta: O senhor já conhecia o Acre ou é a primeira vez que visita o estado?
Edmilson Costa: Essa é a terceira vez que venho ao Acre. Eu vim aqui há dez anos para fundar o PCB, depois eu vim uma segunda vez e agora a terceira.
AC em Pauta: Qual a diferença entre o PCdoB (Partido Comunista do Brasil) e o PCB (Partido Comunista Brasileiro)?
Edmilson Costa: Eles (PCdoB) propõem uma coisa que a gente tinha na década de 50 do século passado, que era alianças com setores da burguesia, com um projeto nacional de desenvolvimento e nós avaliamos que o Brasil já é um capitalismo maduro e que há contradição principal entre capital e trabalho. E quando há contradição principal entre capital e trabalho, a estratégia de transformação é socialista. Então, temos essa grande divergência estratégica. E também existem as divergências táticas. É só olhar quem eles apoiam e quem a gente apoia.
AC em Pauta: E quem vocês apoiam?
Edmilson Costa: Geralmente a gente apoia alguns candidatos do PSOL. Fora disso, tem pouquíssimo apoio fora desse campo.
AC em Pauta: Da última vez queo senhor veio ao Acre para agora, notou muita diferença?
Edmilson Costa: Muita coisa nova, muitas obras, uns viadutos que não existiam.
AC em Pauta: O que mais te atrai no Acre?
Edmilson Costa: O Acre é um estado que tem enorme potencialidade pelas características amazônicas que possui, mas isso não é aproveitado porque as elites políticas não têm interesse em promover transformações de acordo com os interesses populares. Quando se governa apenas para 8% ou 10% da sociedade, o estado acaba permanecendo atrasado do ponto de vista social. Mas o Acre tem todas as condições de se transformar em um grande estado, aproveitando as próprias características.
AC em Pauta: E pré-candidatura à presidência, como está?
Edmilson Costa: Daqui do Acre eu retorno para São Paulo e, no dia 1° de agosto, temos a nossa convenção. Após isso, visitarei o Maranhão, Fortaleza, Sergipe e Recife. Depois retorno para algumas agendas em São Paulo e depois vou para a Região Sul do país. Nossa candidatura tem o objetivo de colocar um conjunto de questões que as outras candidaturas não querem colocar ou não podem colocar em função das suas alianças políticas. Nossa luta é contra o imperialismo e em solidariedade a Cuba, ao Irã, aos palestinos e a todos os povos que lutam contra o sistema imperial. Os trabalhadores brasileiros continuam vivendo com baixos salários, os serviços públicos estão sucateados, nossa juventude continua sem perspectiva e os milionários, banqueiros e donos do agronegócio ganham rios de dinheiro às custas dos trabalhadores. Temos que dar um basta nessa situação.
AC em Pauta: E como o senhor pretende dar esse basta? O que é preciso fazer para inverter as prioridades?
Edmilson Costa: Com transformações nas áreas institucional e política; na economia; na saúde e na educação; nas áreas social e trabalhista; e na área internacional. São cinco grandes transformações que a nossa campanha sintetizou para apresentar durante o período eleitoral.
AC em Pauta: Em caso de vitória, como um presidente comunista conseguiria manter a governabilidade e como será a relação com o Congresso?
Edmilson Costa: Não vejo nenhum problema para manter a governabilidade, porque, se nós ganharmos a eleição, ela será mantida mediante a mobilização popular. Só o fato de vencer as eleições já muda a correlação de forças. Se um comunista consegue ganhar as eleições, é porque mudou a correlação de forças na compreensão das pessoas. Com essa mudança na correlação de forças, você governaria com o povo. O Congresso, queira ou não, terá que ser muito sensível ao que o povo está pensando.
AC em Pauta: O recado passado à população é mais importante do que propriamente o resultado para o PCB?
Edmilson Costa: Nossa campanha é complexa e desafiadora. Nós enfrentamos uma conjuntura bastante desigual, porque as candidaturas da ordem têm o poder econômico, político, o Congresso, os governadores, as prefeituras e os vereadores. Nós temos apenas o nosso programa e nossa militância, que não é grande. Mas achamos que é fundamental, em um processo eleitoral, haver uma alternativa para que as pessoas vejam que não é só mais do mesmo. Nossa candidatura se apresenta como uma alternativa a tudo isso que está aí. Nós queremos mudar o sistema político, queremos extinguir o Congresso e o Senado. No lugar do Senado, queremos um Parlamento unicameral. Achamos que o Senado Federal é uma instituição atrasada e conservadora. Vamos implantar o Parlamento unicameral.
AC em Pauta: E de que forma esse Parlamento seria eleito?
Edmilson Costa: Cinquenta por cento pelo voto universal e os outros 50% pelos movimentos sindicais, da juventude e populares. Porque, nas eleições atuais, com as regras do jogo que nós temos hoje, as maiorias sociais, após as eleições, são transformadas em minorias políticas.
AC em Pauta: Na questão econômica, qual é a grande mudança proposta por sua candidatura?
Edmilson Costa: Nossa campanha propõe a nacionalização e a estatização do sistema financeiro. Porque o sistema financeiro brasileiro é tipicamente especulativo, vive das altas taxas de juros e dos spreads bancários e nem sequer tem ligação com o sistema industrial, como ocorre nos países centrais. Portanto, vamos transformar esse sistema financeiro em um sistema público, ou seja, para servir efetivamente aos interesses da população. Com taxas de juros semelhantes as que se pagam no mundo, e não essa aberração que é aqui no Brasil.
AC em Pauta: Caso eleito, como o senhor irá tratar do tema da reforma agrária?
Edmilson Costa: Propomos uma reforma agrária em todos os latifúndios improdutivos, nas terras onde há trabalho escravo e nas propriedades que não cumprem sua função social. Nesses locais, iremos constituir cooperativas de trabalhadores.
AC em Pauta: E na área da saúde, quais são as suas propostas?
Edmilson Costa: Vamos acabar com a mercantilização da saúde. Vamos estatizar todo o sistema de saúde do Brasil.
AC em Pauta: E na Educação, quais as propostas defendidas pelo PCB?
Edmilson Costa: Uma Educação de qualidade em todos os níveis. Vamos estatizar todas as universidades privadas, que hoje funcionam mais como fábricas de diploma do que como um ensino de qualidade de alto nível.
AC em Pauta: As pesquisas têm apontado uma disputa de segundo turno entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro. Caso esse cenário se mantenha, qual será a posição do PCB?
Edmilson Costa: Nós ainda não discutimos essa questão do segundo turno, só faremos isso após o primeiro turno, mas posso adiantar que estaremos sempre contra a volta da extrema direita ao nosso país.

AC em Pauta: O PCB tem como pré-candidato ao Governo do Acre o presidente do Sindicato dos Bancários, Eudo Raffael. Qual o recado que o senhor deixa para a população acreana desta candidatura?
Edmilson Costa: O Eudo Raffael é um militante histórico das causas sociais, uma liderança sindical reconhecida e tem um programa profundamente comprometido com os interesses populares. É por isso que ele diz ser preciso resgatar o sonho da mudança. Ele tem todas as condições de fazer um governo voltado aos interesses populares, que atenda àquilo que é mais sentido pela população, e nós estamos muito felizes em ter um candidato da qualidade e da estatura do Eudo. Temos certeza de que, nesse embate que haverá aqui, a candidatura do PCB será muito importante para o debate, para que as pessoas vejam que podem ter uma alternativa à elite que sempre governou este estado.
