Seringal Nazaré — Onde a vida acontece e não aparece no mapa — A segunda noite: insônia, frio, pavor e breu

Rodrigo Farias

O seringal é um lugar onde as horas parecem não passar. Meu segundo dia começou às 4h, quando acordei e fiquei jogando conversa fora com o meu parceiro de casa de farinha, o professor José Uchoa, e ouvindo a “sinfonia” dos macacos na floresta. Às 6h30 já tinha tomado café da manhã — sarapatel de porco caipira e macaxeira cozida —, organizado a casa de farinha, que deixaria, durante o dia, de servir de quarto para voltar a ser o local das refeições, conversas e doses de cachaça com limão do mato.

Domingo é o dia do futebol em uma colocação acima da nossa, o que fez com que recebêssemos diversas visitas. Quem passava para jogar encostava para prosear, tomar uma dose e tirar gosto com porquinho do mato assado na brasa de lenha que queimava em metade de um barril e que nos servia de churrasqueira. Foi ali também que Dona Lúcia fritou uma grande quantidade de torresmo para nossos visitantes.

Domingo de “visitas’ na Colocação Monte Santo / Seringal Nazaré: muitos causos e gargalhadas

Bem antes disso, por volta de 7h, enquanto batíamos papo e contemplávamos a natureza, eis que surge, subindo a ladeira, caminhando pela mata, o Seu Buchudo, figura ímpar e o melhor contador de causos que já conheci. Ele vinha com seus passos lentos, de chinelo, calça comprida e camisa de botão. Carregava um grande pedaço de pau, semelhante a um cajado, que depois ele explicou que servia para apoiar e ir cutucando a mata, para espantar possíveis cobras no caminho.

Passamos um tempo incalculável ouvindo as fantásticas histórias do Seu Buchudo, 75 anos de pura sabedoria, e que viera andando pela mata por mais de uma hora, somente para nos conhecer e tomar um café com Bastião, seu compadre. Acabou ficando para o almoço e só foi embora com seu “cajado” no meio da tarde, quando inesperadamente o tempo começou a virar. Chuva, seguida de vento frio. Era por volta de 16h quando tivemos a certeza de que iria fazer frio à noite. Como seria o frio da floresta? E em um local aberto, em uma rede e com apenas uma coberta bem fina de linha que eu havia levado? Era a hora de agilizar o banho na casa de banho e se preparar para o frio.

Seu Buchudo, 75 anos de idade, há 74 anos vivendo na floresta

A noite chegava, e junto a ela um vento forte e gelado vindo da floresta. Raylan e professor Amaral, o outro integrante da expedição, já tinham providenciado madeira o suficiente para acender a fogueira, que serviria de iluminação e para aquecer a noite gelada. Nesse momento, minhas preocupações eram o frio e uma possível vontade de ter que invadir o mato durante a noite para poder usar o “banheiro”. Pois até então, não tinha sentido vontade, e isso me aterrorizava ainda mais. E se ela chegasse forte durante a noite?

Torresmo sendo preparado por Dona Lúcia e depois frito

Depois de um dia agradável, de muitos causos, de muita imersão no mundo daquela gente receptiva e extremamente sábia e um espetacular jantar de caldeirada de peixe, magnificamente preparada por Dona Lúcia, era chegada a hora de dar boa-noite. Todos se despediram e mais uma vez, apenas eu e o Uchoa na casa de farinha. A fogueira amenizava o frio e iluminava nosso aposento. Logo o parceiro de “quarto” dormiu. Ainda era 20h30 e eu não tinha o menor vestígio de sono. Estava certo, a essa altura, que teria a familiar e terrível insônia. No frio, na floresta, ao relento e no mais profundo breu. Do alto da minha rede, assistia a fogueira perdendo força e minha insônia se agigantando cada vez mais.

A casa de farinha, a fogueira e o breu

Dona Lúcia me emprestou uma coberta mais grossa. Foi o que salvou minha pele. Uma incômoda dor no pé resolveu se fazer presente também. Nunca na minha vida eu me lembro de ter sentido tanta vontade de urinar durante a noite. E a fogueira morrendo. Usando a lanterninha do celular, levantei pela quarta vez para fazer xixi e aproveitei para tomar um remédio e colocar uma calça jeans por cima da bermuda. Meu “pijama” era meia, bermuda, calça jeans, duas camisas e jaqueta jeans. E o vento gritava extremamente gelado. O barulho do vento misturado ao da floresta, acho que nunca esquecerei. A fogueira estava morrendo, eu gelado de frio e absolutamente sem sono. Mais uma vontade de urinar. Neste momento, já era 23h e a bateria do celular estava em 13%. Preciso dormir! Que frio!

Não vi que horas consegui dormir, mas tive que levantar mais umas duas ou três vezes para urinar. Neste momento, não havia mais iluminação da fogueira e eu não me atrevia a dar mais que três passos além da rede. Que me perdoem Seu Bastião e Dona Lúcia, mas mijei ali ao lado da rede mesmo. Cobri a cabeça para tentar fazer com que as orelhas não congelassem e finalmente apaguei. Quando acordei era 2h50. Meu Deus… as horas não passam aqui!

Eu e professor José Uchoa, meu companheiro de “quarto” por duas noites. Uma amena e outra gelada

Entre um cochilo e outro, às 4h20 levantei de vez da rede e comecei a olhar para o mato. A vontade de ir ao banheiro estava batendo à porta. Dessa vez não teve o barulho dos macacos. Acho que eles estavam se escondendo do frio. Esperei amanhecer, segurei firme a vontade e caminhei até a casa, onde Dona Lúcia já estava passando o café e cozinhando a macaxeira. Seu Bastião já estava amarrando o burro que levaria nossas bagagens. Dentro delas, muitos ensinamentos, e a certeza de que a Floresta Amazônica é tão grandiosa naquilo que guarda quanto nas pessoas que fazem dela sua morada. Tantas histórias, sabedorias e modos de vida que nos fazem olhar para dentro, com uma certa inquietação.

Ah, não precisei usar o mato como banheiro. Consegui esperar três dias e chegar em casa.

Até breve, Floresta Amazônica!

Casa de banho

Leia o texto 1 – A chegada – clicando aqui

Leia o texto 2 – O primeiro dia e a noite na casa de farinha – clicando aqui

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